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O processo de criação d’O capital

Estiveram em São Paulo os professores Rolf Hecker e Carl-Erich Vollgraf de Berlim, convidados para ministrar cursos e palestras no Programa de Pós-graduação em História Econômica da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

Por Jorge Grespan, USP

Até sua recente aposentadoria, Carl-Erich Vollgraf era um importante colaborador da Marx-Engels-Gesamtausgabe, conhecida pela sigla alemã MEGA, que vem realizando a edição crítica de todos os manuscritos, cartas e textos redigidos por Karl Marx e Friedrich Engels. Entre outros trabalhos, Carl-Erich Vollgraf organizou e publicou os Manuscritos de 1863-1867, um longo texto de Marx que serviu como fonte principal para a edição do Livro 3 de O capital por Engels em 1894. Esse texto, publicado no volume 4.2 da Seção II da MEGA, em 1992, originou grande polêmica, da qual Carl-Erich participou elaborando vários artigos durante a década de 1990.

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A polêmica foi despertada pela constatação de que as diferenças entre o manuscrito original de Marx e o texto editado por Engels eram muito maiores do que se supunha a partir do que o próprio Engels havia confessado no prefácio do Livro 3. Como a edição de Engels era até então a única versão conhecida do texto de Marx, sendo, por isso, aceita como canônica por tantas gerações de marxistas, a descoberta de tais diferenças gerou importantes discussões a respeito de quais seriam as autênticas concepções de Marx nessa etapa final do seu projeto de crítica à economia política.

Por sua vez, Rolf Hecker colaborou e ainda colabora com vários tomos da MEGA. O trabalho mais recente de que participou foi a edição de textos colecionados e comentados por Marx sobre a crise econômica de 1857, um momento decisivo da história do capitalismo por ter se tratado da primeira crise de caráter verdadeiramente internacional. Esses textos, publicados como volume 14 da IV Seção da MEGA pela equipe da qual Rolf Hecker fez parte, permitem reconstituir a motivação de Marx para começar a escrever sua grande obra de crítica da economia política.

A crise de 1857, que parecia no início mais grave do que depois se registrou, deram a Marx o sentido da urgência em fornecer ao proletariado uma análise que o mobilizasse para a luta revolucionária, aproveitando o momento estratégico de quebra do sistema de produção capitalista. Como consequência, surgiram em seguida os manuscritos redigidos entre 1857 e 1858, publicados só no século XX sob o título de Fundamentos da crítica da economia política e conhecidos desde então como Grundrisse. Além da edição desse e de vários outros volumes da MEGA, Rolf Hecker também coordena a revista Beiträge zur Marx-Engels-Forschung, Neue Folge, editada em Berlim pela Argument Verlag.

Tendo chegado a São Paulo, em agosto de 2017, Rolf Hecker e Carl-Erich Vollgraf ministraram um curso de pós-graduação de curta duração, com total de 6 horas de aula, junto com Jorge Grespan, para os alunos do curso de pós-graduação em História Econômica. O tema do curso, relacionado à comemoração dos 150 anos de publicação do Livro 1 de O capital, foi a história dessa obra e de suas sucessivas edições desde 1867. Contando com trinta alunos regularmente matriculados e mais dez ouvintes, o curso foi um grande sucesso.

Ambos os professores convidados despertaram enorme interesse nos seus ouvintes ao tratar de questões que dificilmente são do conhecimento do público brasileiro, tais como o método de trabalho de Marx comparado ao de Engels, a polêmica criada pela publicação dos manuscritos de Marx para o Livro 3 de O capital e o processo de composição e de revisão constante do Livro 1 da obra por seu autor. Vários detalhes desses temas foram discutidos e apresentados, para grande proveito dos alunos presentes.

Por fim, Rolf Hecker e Carl-Erich Vollgraf compuseram uma mesa com o Prof. Horacio Tarcus, da Universidade de Buenos Aires, em uma conferência sobre a recepção da obra de Marx ainda por ocasião dos 150 anos da primeira edição do Livro 1 de O capital.

A conferência foi organizada também pelo Programa de Pós-graduação em História Econômica e foi aberta a toda comunidade acadêmica e ao público em geral, tendo sido registrada a presença de mais de cem pessoas no auditório Nicolau Sevcenko do prédio da Geografia e História da USP. Além dos três professores convidados, a sessão foi aberta pela diretora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, Prof. Maria Arminda do Nascimento Arruda, e pelo chefe do Departamento de História da referida faculdade, Prof. Osvaldo Coggiola, com o Prof. Jorge Grespan na coordenação dos trabalhos.

Rolf Hecker tratou das edições de O capital na Europa a partir de 1867 e de sua respectiva difusão, enquanto Carl-Erich Vollgraf narrou a história da MEGA desde o primeiro estabelecimento, em 1927, sob direção de Riazanov, passando pela suspensão do projeto no quadro das convulsões políticas da URSS, em 1937, pela retomada em meados dos anos 1970 e pelas mudanças sofridas em 1991 com a desaparição das instituições que a editavam na URSS e na DDR.

Junto com a fala de Horacio Tarcus sobre a recepção de O capital na América Latina, as conferências dos professores alemães compuseram uma imagem ampla da difusão de O capital, tendo despertado grande interesse no público, conforme se viu pelas perguntas formuladas aos palestrantes na parte final da sessão.

20170828_o_capital_coloquio-725x1024Pode-se considerar que as atividades realizadas por Rolf Hecker e por Carl-Erich Vollgraf na Universidade de São Paulo, entre os dias 28 de agosto e 2 de setembro de 2017, convidados pelo Professor Jorge Grespan do Departamento de História, representaram um enorme ganho para os alunos e professores dessa instituição, em especial os do Programa de Pós-graduação em História Econômica, que tiveram acesso a informações sobre a obra de Marx praticamente ignoradas no Brasil.

Como relevantes colaboradores da MEGA, os dois convidados conhecem em detalhe os processos de criação e de revisão constante aos quais Marx submetia seus escritos. A Universidade de São Paulo não poderia ter feito uma comemoração mais adequada para os 150 anos de publicação da obra mais importante desse autor.