“Rosa Luxemburgo era uma defensora apaixonada da liberdade”

Em entrevista à Fundação Rosa Luxemburgo, Isabel Loureiro retoma alguns aspectos do curso que ministrou sobre o pensamento da marxista alemã.

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Por Júlio Delmanto

Formada em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná e com os títulos de mestre e doutora obtidos na Universidade de São Paulo, Isabel Loureiro é reconhecidamente uma das principais especialistas no pensamento de Rosa Luxemburgo. Colaboradora da Fundação Rosa Luxemburgo, recentemente organizou o curso “As ideias políticas de Rosa Luxemburgo”, no qual pôde expor detalhadamente aspectos da trajetória e do pensamento da pensadora alemã.

Terminado o curso, Loureiro conversou com o site da Fundação Rosa Luxemburgo sobre alguns dos aspectos discutidos durante as aulas e apontou: o que mais atrai um leitor contemporâneo no pensamento de Rosa Luxemburgo é sua defesa apaixonada da liberdade e sua confiança na sabedoria espontânea dos debaixo.

 Isabel, você é conhecida por ser uma das maiores especialistas latino-americanas no pensamento de Rosa Luxemburgo. O que a maioria das pessoas não sabe, e que você contou no curso, é que você passou a se interessar pela revolucionária alemã por intermédio de Mário Pedrosa…

Isso aconteceu quando comecei a fazer a pesquisa para o mestrado na década de 1970, no departamento de filosofia da USP. A ditadura civil-militar aproximava-se do fim, eu me interessei pela história do socialismo no Brasil e topei com o jornal Vanguarda Socialista na Biblioteca Nacional, no Rio. Esse semanário, editado por Mário Pedrosa, teve vida breve: começou no fim de 1945 e acabou em outubro de 1947. Mas apesar disso, foi uma publicação importante para a formação de parte da esquerda brasileira que ali teve contato com as ideias de Rosa Luxemburgo. Mário Pedrosa escreveu uma série de artigos sobre o tema do partido político em que opunha a concepção de partido-vanguarda leninista, formado por uma vanguarda de revolucionários profissionais, centralizado e hierárquico à concepção de Rosa Luxemburgo, de uma organização democrática de massas, sem separação entre bases e lideranças. Mário Pedrosa tinha rompido com Trotsky e o trotskismo nos anos 1930, e, por conseguinte, com o bolchevismo. Rosa Luxemburgo aparecia então como alternativa de esquerda ao bolchevismo, sendo valorizada por ter percebido antes do tempo o perigo autoritário que estava embutido na concepção leninista do partido-vanguarda, que Trotsky adotou por sua vez. Gostaria de acrescentar que a leitura que Mário Pedrosa fez do bolchevismo em Vanguarda Socialista moldou decisivamente minha maneira de ver como deve ser um partido político de esquerda.

 Como já dito, você é reconhecida pelos estudos sobre a vida e a obra de Rosa Luxemburgo, tendo publicado muitos artigos e livros sobre o assunto e recentemente até organizado uma coletânea, em três volumes, de escritos dela. Quando recebeu o convite da Fundação para ministrar esse curso o que te motivou a aceitar?

Aceitei por algumas razões. Primeiro, porque acho que uma das funções da Fundação Rosa Luxemburgo deve ser difundir o pensamento daquela que lhe deu o nome. Segundo, porque há tanto tempo venho me dedicando ao estudo do pensamento de Rosa Luxemburgo que considero minha obrigação fazer o possível para divulgá-lo, sobretudo para os militantes dos movimentos sociais, que são os principais interlocutores da Fundação. E por fim, porque, como você disse, organizei três volumes com escritos dela e pensei que seria uma boa oportunidade para tornar esse trabalho mais conhecido.

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Você ficou surpreendida com o alto número de inscritos e participantes? O que acha que motiva as pessoas a ainda buscarem se informar sobre a Rosa?

Fiquei surpresa, sim. E contente por ver que, apesar de terem se passado quase 100 anos da sua morte, Rosa ainda continua a nos interpelar. O que primeiro atrai as pessoas, acho, é a figura dela e seu fim trágico. Mesmo quando não se conhece seu pensamento político e econômico, sabe-se que foi assassinada e isso contribui para despertar simpatia. Em seguida, vem o interesse por suas ideias. Muitas continuam válidas, como, por exemplo, a defesa intransigente das liberdades democráticas em todas as sociedades e em todos os tempos; a crítica incisiva à ideia de um partido de esquerda formado por um núcleo duro de revolucionários profissionais separado das bases, cuja função seria a de liderar as massas populares que, por sua vez, se limitariam a obedecer o comando vindo do alto; a defesa incondicional da necessidade da formação política e intelectual das classes subalternas, que ela via como pré-requisito para a sua independência política; e, finalmente, uma ideia que está na ordem do dia, a da espontaneidade das massas populares; ou seja, a ideia de que as massas entram em ação independentemente de palavras de ordem dadas por lideranças partidárias ou sindicais e de que a organização se constrói a partir da própria luta, quotidiana e/ou revolucionária.

Para dizer em poucas palavras, penso que o que mais atrai um leitor contemporâneo no pensamento de Rosa Luxemburgo é sua defesa apaixonada da liberdade, tanto pública quanto individual, e a esperança quase ilimitada que depositava na “sabedoria” espontânea dos de baixo. Para Rosa, não há sociedade livre sem indivíduos livres, conscientes, não manipulados, quer por lideranças políticas, pela mídia, pela propaganda, ou, no plano individual, por suas paixões e fantasmas. Rosa era filha da Aufklärung [Esclarecimento], esse era seu mundo e seu limite. Mas apesar de hoje sabermos que não basta o esclarecimento racional, penso que ela tinha razão de acreditar que não existe possibilidade de virar a página sem a iniciativa e a participação dos que mais sofrem com a desigualdade econômica, social e política engendrada pelo capitalismo.

Você começava todas as aulas do curso lendo trechos de cartas da Rosa, coisa que despertou muito interesse nos presentes, sobretudo por mostrar um lado mais sentimental e muito menos conhecido dela. O que essa “outra Rosa” pode comunicar a um leitor nos dias de hoje em sua opinião?  

Minha intenção era questionar um estereótipo muito comum nos grupos de esquerda radical, de que um/uma militante revolucionário/a dedicam todo o seu tempo à política. Felizmente não é assim. Rosa oferece um bom contra-exemplo na correspondência com os amigos e amantes. Como mulher cultivada que era, ela tinha os mais variados interesses, que iam da pintura e da literatura à música, passando pela botânica e pela geologia. Além disso, revela grande sensibilidade no que se refere às relações amorosas e de amizade. Sua luta para se tornar uma mulher independente em termos intelectuais e pessoais ainda nos comove, sobretudo a nós mulheres, que continuamos sendo alvo dos mais diferentes tipos de opressão.

rosa2O curso foi dividido em três módulos, sendo o primeiro deles intitulado “O marxismo de Rosa Luxemburgo”. Sabemos que esse termo “marxismo” é bastante amplo, comportando inclusive uma série de pensamentos e ações bastante questionáveis – como você resumiria o marxismo da Rosa? Em linhas gerais, em que medida ela atualiza o pensamento de Marx e de que forma se diferencia de outros marxismos?

É preciso que fique claro que Rosa Luxemburgo é uma pensadora marxista clássica, formada na escola de Marx e da II Internacional, cujo líder intelectual era Karl Kautsky. Nessa medida, ela não rompe totalmente com uma interpretação determinista do marxismo, típica dessa época. A Rosa anterior à guerra de 1914 acreditava que as contradições imanentes ao modo de produção capitalista levarão necessariamente ao seu colapso (embora não automaticamente, e sim com a colaboração do agir humano). Este é um lado da moeda, que aparece em seus textos “doutrinários”, nos quais expõe, de modo às vezes escolar, a doutrina marxista. Rosa estava mergulhada nesse caldo de cultura e não podemos ser anacrônicos, pedindo-lhe algo que não podia dar. Ao mesmo tempo, nos escritos em que analisa os acontecimentos políticos da época não há nada de dogmático nem de escolasticismo marxista – e é por isso que ainda falamos dela – porque aí Rosa alia ao profundo conhecimento da teoria de Marx seu talento jornalístico-literário e sua perspicácia política. É o caso de Greve de massas, partido e sindicatos ou de A crise da social-democracia, para mencionar apenas estes. Rosa é original quando escapa da ortodoxia da II Internacional. Por exemplo, em Greve de massas, próxima do anarquismo ainda que contra vontade, ela desenvolve a ideia de que a mudança social é fruto da ação autônoma das massas populares que, no seu combate quotidiano pela ampliação de direitos, e sobretudo, na luta pela transformação radical da sociedade capitalista, modelam sua consciência política e social.

A ideia é que se queremos mudar o estado de coisas vigente é preciso agir aqui e agora, pois a nossa ação é a única possibilidade de frear o trem que corre em direção ao abismo. Esta é uma das ideias-chave do pensamento político de Rosa que continua atual. As manifestações que têm ocorrido pelo mundo, desde as ondas do movimento Occupy até as recentes jornadas de junho no Brasil são um exemplo contemporâneo do que ela entendia por espontaneidade das massas. Mas ela também achava que só espontaneidade não resolve, que o trabalho organizativo é fundamental para estruturar as explosões de energia que brilham esporadicamente no céu cinzento da vida quotidiana. Rosa também é original em A crise da social-democracia. Nesse balanço amargo do processo de decomposição da social-democracia alemã – que culminou na aprovação dos créditos de guerra pela bancada do SPD em 4 de agosto de 1914 – ela põe em questão, pela primeira vez, a ideia ingênua de progresso, típica da II Internacional. Para os socialistas, essa ideia se traduzia na crença de que o socialismo resultaria, mais cedo ou mais tarde, das contradições imanentes ao modo de produção capitalista. Nesse que é um dos seus melhores ensaios, Rosa põe na ordem do dia a palavra de ordem socialismo ou barbárie, dando assim a entender que o socialismo deixou de ser uma garantia para passar a ser uma aposta. E essa aposta só pode ser vencida se houver o engajamento das classes subalternas, aqui e agora, contra a barbárie. É a interpretação de Michael Löwy, com a qual concordo inteiramente.

Já o segundo módulo tinha como nome “Revolução, democracia e socialismo” e discutiu, entre outras questões, o polêmico tema do partido e das formas organizacionais revolucionárias. Em que medida a divergência entre Rosa e Lênin ainda é atual para o fazer revolucionário?

De fato, mesmo quando não se sabe quase nada do pensamento de Rosa, a divergência entre ela e Lênin no que se refere ao partido é conhecida. Ela se opunha à concepção leninista de partido-vanguarda porque temia acima de tudo a separação entre dirigentes e dirigidos, chefes (como dizia ironicamente) e massas, tal como estava acontecendo no processo de burocratização da social-democracia alemã, que ela acompanhou de dentro. No seu entender, o papel da liderança é acabar com a divisão entre vanguarda e massa, é transformar a massa em líder de si mesma. A disciplina arbitrária imposta pelos dirigentes às bases retira a responsabilidade delas e as infantiliza, num movimento que leva o partido a transformar-se num aparato burocrático dominado por uma camarilha de líderes “infalíveis”. Mário Pedrosa e os socialistas brasileiros, já na década de 1940, assumiram essa crítica de Rosa a Lênin entendendo-a como premonitória do que viria a ser a catástrofe stalinista para a esquerda do século XX. Mas hoje a própria concepção de partido, ainda que democrático, está se tornando rapidamente obsoleta junto com o capitalismo fordista. É preciso encontrar novas formas de participação popular direta para as quais as novas mídias podem contribuir decisivamente e que requer novos conceitos e novas teorias.

Durante o curso você lembrou que existem até hoje inúmeros grupos que se autodenominam “leninistas” mas praticamente nenhum “luxemburguista”. Alguma hipótese para isso? Seria o pensamento de Rosa mais dialético e portanto menos afeito a “modelos” ou a explicação está mais na hegemonia soviética dentro da Internacional e do movimento comunista?

Você tem razão, a resposta está na hegemonia soviética, em primeiro lugar, e no papel secundário que Rosa Luxemburgo teve durante o século XX devido à predominância do famigerado marxismo-leninismo. Mas isso também se deve ao fato de ela dar mais importância às massas em movimento, à conscientização delas no processo de luta do que ao papel da organização.

O terceiro e último módulo do curso versava sobre o pensamento econômico da Rosa, sobretudo em relação ao chamado imperialismo. Em seu livro O Brasil e o capital imperialismo, a historiadora Virgínia Fontes mostra como o termo imperialismo teve diferentes interpretações e utilizações ao longo da história. Em que especificamente a obra da Rosa nos ajuda a entender esse fenômeno e o mundo atual?

Rosa tem uma grande obra de economia política, A acumulação do capital (1913), onde encontramos uma explicação para o enriquecimento das nações européias às custas da periferia do capitalismo, num processo que se inicia nos primórdios do modo de produção capitalista. A descrição do processo de substituição da economia natural pela economia mercantil e desta pelas formas de produção capitalista – processo em que o capital transforma paulatinamente essas formas não-capitalistas de produção para adaptá-las às suas necessidades – foi considerada uma boa explicação para o “subdesenvolvimento” causado pela expansão capitalista. Em outras palavras, a ideia de que a acumulação do capital, para além da apropriação da mais-valia, só foi e é possível no intercâmbio entre economias capitalistas e não-capitalistas continua até hoje uma descrição convincente do processo de desenvolvimento histórico do capitalismo como processo global e, consequentemente, uma boa descrição da destruição violenta das culturas e dos espaços não-capitalistas. Esse processo violento de “acumulação primitiva”, que permanece até hoje, foi chamado de “acumulação por expropriação” por David Harvey.

Atualmente, num procedimento mais sofisticado que na época do colonialismo clássico, a estratégia do capital, além dos métodos tradicionais, consiste também em transformar antigos direitos em mercadorias. Assim como Luxemburgo em sua época denunciava que o desenvolvimento capitalista não é apenas o “domínio da ‘concorrência pacífica’, das maravilhas técnicas e do puro comércio de mercadorias” mas também “o terreno da violência ruidosa do capital”, o mesmo fazem hoje os movimentos sociais na América Latina, mostrando que a simbiose entre Estado e grandes empresas extorque os meios de vida dos povos da floresta, dos indígenas, trabalhadores sem terra, etc. Rosa foi não só uma precursora da teoria da dependência como do conceito de sistema-mundo e, nesse sentido, suas ideias econômicas voltaram à ordem do dia.

rosa3A última aula do curso foi na verdade um debate sobre modelos de desenvolvimento, para o qual foi convidado o ecossocialista José Correa Leite. Com a chegada ao poder dos chamados “governos progressistas” na América Latina este é um tema de bastante atualidade, servindo como divisor de águas de uma série de aspectos fundamentais, como por exemplo a questão ambiental. Por que você escolheu terminar o curso dessa forma? Em que medida essa discussão se conecta ao que foi conversado sobre a trajetória da Rosa?

Na apresentação do curso no primeiro dia de aula apontei três reivindicações básicas (que foram desenvolvidas depois) para um programa de esquerda socialista: democracia radical, fim da privatização generalizada do mundo, questão ecológica. Hoje, o socialismo só pode ser entendido como ecossocialismo. Aí já tem uma crítica ao desenvolvimentismo ou ao consenso das commodities (na ótima expressão de Maristela Svampa), como é posto em prática pelos governos de esquerda na América Latina. Para ficar só no Brasil, as recentes manifestações de massa pelo país inteiro revelaram a insatisfação generalizada com o atual modelo econômico-político. Apesar da redução da pobreza extrema, o país continua altamente excludente e injusto, e politicamente pouco democrático. Meu objetivo ao terminar o curso dessa maneira era apontar a necessidade de lutarmos por uma alternativa não centrada na mercantilização da vida.

Ou seja, um programa que questione o desenvolvimento entendido como puro crescimento econômico, que não se importa que o preço a pagar seja a destruição do meio ambiente, como em Belo Monte, ou as cidades entupidas de automóveis. Acredito que esse programa pode dar à esquerda brasileira o fôlego que ela perdeu. Como isso se liga com a trajetória da Rosa? De maneira um tanto acidental, sem dúvida. Mas como mostrei no curso, a ligação visceral dela com a natureza (as cartas o comprovam) a levaria hoje a defender os direitos da pacha mama.

Na primeira etapa do curso você ressaltou que a esquerda vive, mundialmente, “um momento complicado”, e chegou a questionar se as pessoas “perderam a capacidade de imaginar alternativas ao mundo da mercadoria”. De fato, se por um lado o capitalismo segue cada vez mais selvagem, por outro a política é cada vez mais apenas sinônimo de corrupção ou, no mínimo, pragmatismo. Você lembrou também da famosa frase de Karl Liebknecht que dizia que há derrotas que são vitórias e há vitórias mais fatais do que derrotas: que elementos principais você acredita que a derrota de Rosa aporta à necessária reflexão sobre os rumos atuais da esquerda?

Rosa foi derrotada em vida pelo reformismo social-democrata e depois de morta pelo stalinismo. Este instrumentalizou a imagem da mártir em seu proveito, pondo na sombra ou rejeitando suas críticas a Lênin e aos bolcheviques. Só com o fim do comunismo burocrático seus escritos puderam ser plenamente conhecidos nos antigos países comunistas. Nesse sentido, as ideias da derrotada Rosa acabaram por vencer, se não na realidade, ao menos como programa. E quais seriam elas? Antes de mais nada, a ideia de que socialismo e democracia se condicionam reciprocamente. Para ela, tanto o período de transição ao socialismo quanto a própria construção de uma sociedade socialista requerem não só os direitos políticos que as revoluções burguesas inventaram quanto a sua complementação com os direitos de igualdade social, ou seja, liberdade e igualdade. Este beabá do socialismo foi suprimido nos países comunistas e deu no que deu. Um desdobramento disso consiste na defesa do espaço público como antídoto contra a burocratização e a ossificação das instituições. Na tradição do Iluminismo, Rosa acredita que direito de reunião, associação, imprensa livre etc. são indispensáveis para formar trabalhadores intelectualmente autônomos, base do socialismo democrático; a crítica ao imperialismo, que continua atual; a aposta na ação livre das massas populares, como catalisadora da mudança radical da sociedade.

A esquerda pode partir desse programa iluminista-luxemburguista clássico, mas precisa evidentemente ir além dele. Hoje está mais claro do que nunca que encontrar respostas para os velhos e novos problemas postos pela acumulação do capital requer abertura de espírito e independência intelectual, qualidades que, aliás, Rosa Luxemburgo tinha em abundância. Seu exemplo é inspirador. Lembremos que o mundo em que ela tinha sido criada saiu subitamente dos trilhos e de repente tudo se tornou incompreensível. Recusando-se a fazer concessões ao nacionalismo da social-democracia alemã que passou a apoiar a política do governo imperial, Rosa e seus companheiros spartakistas não hesitaram em pagar o preço do isolamento político, exigido naquelas circunstâncias, para erigir o programa socialista em novas bases. Acredito que esse exemplo continua válido até hoje e que se a esquerda tem tão pouca credibilidade logo agora que o capitalismo entrou em profunda crise, isso tem a ver, em grande parte, com a trajetória dos partidos socialistas que, desde há muito, assumiram o papel de gestores do capitalismo. O radicalismo de Rosa Luxemburgo, a coragem intelectual para romper com o mainstream da esquerda governamental – mesmo ao preço do isolamento – são a postura adequada para desfazer o imobilismo que está levando o mundo ladeira abaixo por acreditar não existir alternativa ao mundo da mercadoria.