RESENHA

Rosa Luxemburgo ou o preço da liberdade

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Por Thiago Fernandes Franco*, da Crítica Marxista**

I – A Fundação Rosa Luxemburgo promoveu o lançamento da segunda edição – significativamente revista e ampliada – do livro Rosa Luxemburgo ou o preço da liberdade em 27 de março [de 2015]. Da primeira edição, foram republicados “Entre o amor e a cólera”, de Jörn Schütrumpf; “Socialismo e liberdade”, de Michael Löwy; e “A Revolução Russa”, texto fundamental de Rosa. Além destes, também foram republicados comentários de quem conviveu com a revolucionária, como Lenin e Paul Levi. Dentre esses textos, chama atenção o testemunho de Rosi Wolfstein, que oferece um relato do impacto que Rosa Luxemburgo exercia entre estudantes da escola do partido. Além disso, foram republicados dois textos em que se percebe o talento lírico de Rosa (o amargo “No albergue”, e o consolador “Meu pobre búfalo, meu pobre irmão querido”).

Há ainda novos textos nesta edição, incluindo uma introdução escrita pelo diretor da Fundação, Gerhard Dilger [“Em nome da Rosa”] e dois textos da revolucionária que lançam luz sobre suas posições na polêmica cisão da social-democracia alemã: “A tática da revolução” e “Sobre cisão, unidade e saída”. Além destes, esta edição traz outro inédito de Rosa, “Segredos de um pátio de prisão”, no qual temos a oportunidade de conhecer seu brilhantismo literário por meio de duas de suas paixões: música e jardinagem.

II – A mudança mais significativa da segunda edição é a seção intitulada “A acumulação do capital revisitada” –, declaradamente uma resposta à retomada dos estudos sobre as interpretações luxemburguistas sobre o imperialismo que seguiram a publicação do livro de David Harvey, “O novo imperialismo”. Nas palavras de Dilger, essa edição é também uma tentativa de promover o “reconhecimento de seus escritos econômicos”, “frequentemente negligenciados” (p.9). Em “Imperialismo ocidental versus comunismo primitivo”, Löwy chama a atenção para “outros aspectos de sua teoria do imperialismo que não o econômico” e procura destacar, fugindo da polêmica sobre os “erros” da teoria “econômica”, que, sobretudo em “Introdução à economia política” , Rosa “adotou o ponto de vista das vítimas da modernização capitalista” (p.94).

No outro texto “brasileiro”, “A menos eurocêntrica de todos”, Isabel Loureiro ressalta que “existem outras leituras que deixam de lado os erros técnicos e teóricos da obra para enfatizar que Rosa Luxemburgo foi a primeira teórica marxista a compreender o capitalismo como um sistema mundial” (p.97). Assim, destaca a importância que Rosa conferia aos problemas da periferia – sobretudo a destruição das formas de vida não capitalistas –, coadunando com a atuação da Fundação, que tem colaborado com movimentos que procuram (re)inventar e/ou preservar “outro modelo de desenvolvimento”, cuja centralidade esteja tanto na preservação ecológica, quanto nos valores do “bem-viver”.

Ainda sobre a questão “econômica”, um texto traz argumentos destoantes: “A herança econômica recalcada”, de Michael Krätke. Ainda que comungue da ideia de que “a crítica de Rosa Luxemburgo a Marx era incorreta, falha e extremamente vulnerável dos pontos de vista metodológico e teórico” (p.83), Krätke defende que ela “não foi compreendida como economista, o que era por formação, por inclinação e por atividade” e, assim, “sua herança teórica, hoje quase esquecida, permanece inexplorada” (p.75). Em síntese, Krätke defende que “uma Rosa Luxemburgo dividida ao meio, da qual a economia política foi expulsa, serve apenas à lenda” (p.75).

Retomando a “herança econômica”, Krätke lembra que a tese de doutorado de Rosa – uma robusta análise estatística e empírica – foi “aprovada com louvor e imediatamente publicada”. Além disso, sua “sua obra-prima, A acumulação do capital”, foi escrita como “‘contribuição à explicação econômica do imperialismo’” e “seu trabalho principal como jornalista, professora e intelectual pública consistia no esclarecimento [das condições econômicas] e na crítica [da economia política]” (p.75). Portanto, para ele, “os escritos aos quais a belicosa e nobre pena de Rosa Luxemburgo deve sua fama são incompreensíveis se nos esquecermos da economista política [sic]” (p.76).

Assim, Krätke procura refutar a tese de que “na obra de Rosa Luxemburgo economia e política se dissociam completamente” e “andam lado a lado, sem nenhuma relação entre si”. Para ele, “isto não procede de forma  alguma”, porque “Rosa Luxemburgo não se enquadra em esquemas: ela não se submete à divisão de trabalho finamente depurada e academicamente estabelecida” (p.78).

O que Krätke procura mobilizar para corroborar o argumento são justamente os assim chamados “textos políticos”. Para ele, em Reforma social ou revolução?, “Bernstein é despachado […] como mau economista político” e o revisionismo e o oportunismo são refutados por basearem-se “em teorias econômicas errôneas” (p.76). Além disso, argumenta que no texto de Rosa sobre a greve de massas, “uma questão aparentemente apenas tática do movimento operário é tratada […] em termos econômicos e políticos” (p.78), assim como “A crise da social-democracia (Brochura de Junius)” “trata de economia política” (p.77). Para nós, a iniciativa de Krätke de refutar uma leitura de Rosa na qual se separam os “textos econômicos” dos “textos políticos” é louvável. Entretanto, nos parece que o próprio autor parte de uma leitura economicista que confunde a crítica da economia política (que Rosa procurou realizar) com a economia política crítica – que é a hipótese que estabelece a linha que a ligaria a M. Kalecki (p.85).

III – A ênfase nos aspectos “econômicos” de Rosa nesta segunda edição de Rosa Luxemburgo ou o preço da liberdade pode trazer impactos positivos para o marxismo brasileiro e a Fundação Rosa Luxemburgo pode ocupar um papel especial nisso. Primeiramente em termos editoriais, porque, apesar da concordância – reafirmada várias vezes ao longo da edição – de que essas são suas obras principais, “A acumulação do capital” e “Anticrítica” estão fora de catálogo desde a década de 1980 – quando foram publicadas em uma coleção voltada para economistas – e Introdução à economia política nem sequer foi traduzida para a língua portuguesa.

Além disso, a leitura que afasta a equivocada separação entre “Rosa economista” e “Rosa política” pode nos revelar que Rosa – que não era economista, mas dominava os fundamentos dessa ciência burguesa – estava correta no estabelecimento dos vínculos indissolúveis entre a reprodução “normal” do capitalismo – inexoravelmente violento – e a barbárie em que vivemos. Do nosso ponto de vista, esse empreendimento pode nos revelar uma Rosa coerente que coexiste com a Rosa “intuitiva” e “genial” e contribuir para a busca de outras formas de vida para além do capitalismo.

Não devemos ser acríticos, mesmo porque seria uma traição à sua herança. Mas podemos fazer coro com Paul Levi que, escrevendo para Clara Zektin, sustenta como hipótese de leitura dos textos luxemburguistas uma ideia poderosa: a unidade do pensamento de Rosa e os critérios políticos pelos quais seus opositores costumam apontar seus “erros” teóricos. Em suas palavras: “em resumo, acredito que existe uma diferença profunda, tanto entre Rosa e os mencheviques, quanto entre Rosa e os bolcheviques. Penso, querida camarada Clara, que você não faz justiça a Rosa quando reduz tudo a mal-entendidos, a falta de informação – Rosa estava muito bem informada – ou a mau humor pessoal. Uma pessoa com uma visão de mundo tão completa como Rosa é sempre a mesma por toda parte: quer escreva o programa de Spartakus ou critique os bolcheviques, quer escreva artigos ou livros, quer faça um discurso ou tome decisões táticas – é sempre a mesma pessoa, e precisamente o que consola é que existam ou tenham existido pessoas assim” (p.150).

* Doutorando em História Econômica na Unicamp. E-mail: thiagoffranco@yahoo.com.br.

** Texto publicado originalmente na edição 42 da revista Crítica Marxista

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