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LGBT Sem Terra: uma identidade de luta

Auto-organização dos grupos pela diversidade sexual no MST impulsiona a decisão política do movimento de pensar e articular o processo de fortalecimento das lutas e da visibilidade da pauta

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Coletivo LGBT do MST fortalece pauta no movimento (Foto: Maria Silva)

Por Wesley Lima, MST

Terra, luta, resistência, feminino, masculino, participação, visibilidade e glamour. Muitas são as palavras que ilustram o significado da identidade LGBT Sem Terra, que além de propor um processo de luta permanente contra as estruturas raciais, patriarcais e heterossexistas do capitalismo, aponta os assentamentos e acampamentos do MST como espaços de liberdade de expressão e de vivência da sexualidade como parte integral do projeto de sociedade socialista.

Fruto da auto-organização dos sujeitos LGBT, o MST tomou a decisão política pensar e articular para dentro e fora da organização o processo de fortalecimento das lutas e visibilidade de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais assentados e acampados. Para isso, o projeto de Reforma Agrária Popular, que no último período foi colocado como um instrumento de enfrentamento permanente ao agronegócio, é base de sustentação das lutas as estruturas de opressão e exploração do capital, como o patriarcado e o racismo.

Agnaldo Cordeiro, educador do campo em Santa Catarina e sujeito LGBT Sem Terra, ao compreender essas questões, acredita que o debate é algo que vem para garantir o amadurecimento da organização. “É um processo necessário para discutir o sujeito que é vítima, não só do preconceito, mas também de um projeto capitalista de sociedade”.

“As questões relacionadas à diversidade sexual não podem ser colocadas à margem. É um debate que tem que acompanhar a organização […] a importância não é apenas pelo reconhecimento da identidade LGBT para dentro do movimento, mas por uma questão de princípio humano, pois o sujeito LGBT é o sujeito Sem Terra e que está presente no processo de construção da revolução”, afirma Cordeiro.

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Sereia, travesti e Sem Terra (Foto: Dowglas Silva)

A travesti maranhense Sereia atua no Setor de Frente de Massa em seu estado e para ela, os LGBT avançaram dentro da organização, tendo em vista que houve a ocupação de diversos espaços nas direções, onde diversas decisões são tomadas por esses sujeitos, com reflexo em todo corpo organizativo do movimento.

“Hoje em dia temos travestis assentadas que desenvolvem várias atividades importantes, e isso é reflexo de um empoderamento desses sujeitos LGBT. Nossa tarefa é ocupar mais espaços”, enfatiza Sereia.

“Ser LGBT é viver a luta com liberdade”
A construção da identidade LGBT passa por diversas perspectivas de cunho teórico e prático, pois é a partir da vivência política na luta em defesa da Reforma Agrária que essa questão é reafirmada. Agnaldo destaca que o LGBT Sem Terra é um sujeito que, além de sonhar com uma sociedade justa economicamente, almeja a liberdade. E explica: “Não se trata só de rótulos, mas de se amar, de se viver e de experimentar sua sexualidade”.

Ele comenta também que o debate em torno da afetividade precisa ser politizado e amadurecido na organização. “O LGBT Sem Terra não se define em palavras, mas pela existência no movimento e na luta”.
Já Sereia acredita que ser LGBT Sem Terra é “se reconhecer e não ter medo, pois é sinônimo de superação e construção coletiva”.

Curso de Formação
Fruto dessa compreensão, o MST reuniu cerca de 80 LGBT Sem Terra, de diversos estados do Brasil, para estudarem temas em torno da luta de classes e da diversidade sexual. As atividades tiveram início na última segunda-feira (30) e terminou no sábado (04), na Escola Nacional Florestán Fernandes (ENFF), em Guararema, São Paulo.

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Curso de formação política LGBT foi realizado na Escola Nacional Florestán Fernandes (ENFF) (Foto: Dowglas Silva)