ANOS DE CHUMBO



A cumplicidade da Câmara Brasil-Alemanha com a ditadura

Empresário que ajudou a captar recursos para centros de tortura ganha destaque em livro de 100 anos da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha de São Paulo

Por Christian Russau*

A Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha de São Paulo decidiu homenagear em seu livro de comemoração de 100 anos de existência seu presidente fundador, João Batista Leopoldo Figueiredo, primo do ditador João Batista de Oliveira Figueiredo e tido como um dos empresários que ajudaram a estruturar e financiar centros de tortura estabelecidos no país. A publicação, disponível em destaque no site da entidade, lembra que Figueiredo tornou-se sócio honorário após deixar a direção como uma distinção e em função do “sucesso” de seu trabalho. Não há menções à sua participação na arrecadação de recursos junto à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) para financiar a repressão.

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Trecho do livro no qual João Batista Leopoldo Figueiredo, presidente fundador da Câmara, é citado como um exemplo de sucesso. Primo do ditador Figueiredo, ele se tornou sócio honorário três anos depois do golpe

O papel de Leopoldo Figueiredo nas coletas organizadas junto ao empresariado é mencionado em reportagem do jornal O Globo, baseada em arquivos do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), um dos centros de repressão, revelados pelo Arquivo Público de São Paulo. Suas ligações com a ditadura e papel ativo no golpe de 1964 aparecem até mesmo em texto com sua biografia publicado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas. Destaque para o fato de que, na década de 1960, ele fundou e presidiu o Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (IPÊS), organização que reunia empresários do Rio de Janeiro e de São Paulo e que participou da organização da derrubada da democracia, questão que chegou a ser tema de reportagem da revitsa Fortune na época.

No Brasil, os 100 anos da Câmara Brasil-Alemanha serão comemorados em uma festa de gala na noite de 23 de novembro, uma quarta-feira, em um espaço de luxo na Vila Olímpia, em São Paulo. O ingresso sai por R$ 500,00.

Temer teria cogitado neto para equipe econômica
A influência da família Figueiredo no Brasil está longe de ser algo do passado. O neto de Leopoldo Figueiredo, Luiz Fernando Figueiredo, foi diretor do Banco Central durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, e, segundo a revista Época Negócios, chegou a ser cotado por Michel Temer para assumir como secretário do Tesouro ou para a presidência do Banco Central logo após a deposição da presidenta Dilma Rousseff. Sócio-diretor da Mauá Capital, gestora de fundos de investimento, recentemente ele deu entrevista ao jornal Valor defendendo, entre outros, a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional, a PEC 241, também conhecida como PEC do Fim do Mundo por estabelecer um teto para gastos públicos afetando investimentos em determinadas áreas, com previsão de impacto em políticas sociais. Na entrevista, reproduzida  no site do Ministério da Fazenda, ele também argumentou em favor da Reforma da Previdência e na Reforma Trabalhista, mudanças que devem implicar em cortes nas aposentadorias e nos direitos trabalhistas. Leopoldo Figueiredo também atuou na carreira pública no setor financeiro. Antes de participar na organização do golpe e na estruturação de centros de tortura, ele presidiu o Banco do Brasil no começo da década de 1960. Em entrevista em 2009, o neto citou o avô como inspiração e exemplo.

* Christian Russau é jornalista e integrante da Associação de Acionistas Críticos, na Alemanha. Ele esteve na Feira do Livro de Frankfurt para apresentar seu livro sobre impacto de actuação de empresas alemãs no Brasil, editado pela Fundação Rosa Luxemburgo e por medico international.

Colaborou Daniel Santini