Revolução feminista



“O momento é de construir o novo”

Na semana passada, toda a atenção esteve voltada para a Argentina onde, graças à mobilização de centenas de milhares de mulheres adultas e adolescentes, o Congresso aprovou o projeto de lei de interrupção voluntária da gravidez que é, simplificando, a legalização do aborto até a 14ª semana de gestação. Para a comunicadora popular argentina, que participou de toda a mobilização em defesa da aprovação da lei, Camila Parodi, trata-se, de fato, de uma revolução de massas, pois é o momento “de problematizar tudo o que é conhecido para criar o novo”.

aborto slider argentina

Mais de um milhão de mulheres ocuparam as ruas para acompanhar a votação e pressionar o resultado. Foto: Opera Mundi – reprodução facebook


Por Vanessa Martina Silva, Opera Mundi – Diálogos do Sul*

A lei foi aprovada nesta quinta-feira (15) pelos deputados argentinos em votação apertada. Foram 129 posicionamento favoráveis à medida e 125 contra. O resultado só foi definido nos últimos momentos, em uma votação que entrou madrugada adentro e durou quase 24 horas. Durante todo o tempo, uma multidão esteve do lado de fora do Congresso acompanhando a votação e pressionando os deputados.

“De madrugada, ainda não havia votos suficientes para que [a medida] fosse aprovada. Foi a pressão das ruas, com mais de um milhão de mulheres fazendo vigília que determinou o custo político para os que decidiram reverter o voto”, conta Parodi em entrevista à revista Diálogos do Sul.

O projeto de lei segue agora para o Senado, casa legislativa considerada mais conservadora e onde a medida corre riscos de ser barrada na votação esperada para setembro. Sobre isso, Parodi, que escreve para o site alternativo Marcha e integra o coletivo de educação popular Lenços em Rebeldia (parceiro da FRL), considera que “não há volta atrás desta conquista” e garante: “seguiremos em marcha até que todas sejamos livres”. Confira a íntegra da conversa:

Para começar, como vocês conseguiram essa mobilização a ponto de pautar esse tema no Congresso? Isso quando o governo de turno, de Mauricio Macri, é conservador e, inclusive, declarou ser contra o projeto…
Cabe destacar que o movimento feminista na Argentina tem muitíssimos anos de organização, encontros nacionais e ações diretas nas ruas. Nesse sentido, a luta pelo aborto legal, seguro e gratuito que resulta na Campanha Nacional pelo Direito ao Aborto e no símbolo do lenço verde é, também, uma construção coletiva de muitos anos.

Outro dia recordávamos que não faz mais de cinco anos saíamos às ruas em grupos pequenos de companheiras por todas as cidades da Argentina para falar de aborto legal e a reivindicação, em um primeiro momento, não era compreendida. Depois de falar, de levar às escolas, de fazer com que a temática do aborto entrasse no cotidiano, foi sendo quebrado esse senso comum e, assim, fomos conseguindo assinaturas em apoio ao projeto e também conseguimos que os partidos políticos e movimentos sociais começassem a compreender sua importância.

Ainda que se trate de um contexto hostil em termos políticos e econômicos, entendemos que este debate é realizado por causa dessa unidade de ação gerada pela temática do aborto. Após três anos de marchas do movimento Ni Una Menos [Nem Uma Mulher a Menos, movimento contra o feminicídio] e de mais de 30 anos de encontros nacionais de mulheres, o feminismo organizado foi penetrando profundamente na política argentina e, sem ser convidado, entrou pela porta dos fundos para ficar.

O governo de Macri, entendemos, não pode ignorar esta reivindicação coletiva e unificada que já conseguiu aceitação no senso comum da sociedade. A abertura do debate ao aborto por Mauricio Macri foi dada algumas semanas antes de o feminismo organizado ter anunciado adesão à paralisação internacional realizada em 8 de março, quando nenhuma central sindical o fizera. Ou seja, ele sentiu que a primeira pressão do ano a suas políticas de ajuste econômico veio do movimento de mulheres.

Como você avalia o resultado da votação no Congresso?
Hoje estamos muito felizes por ter esta meia sanção dos deputados. Efetivamente isso se deve à nossa luta, não há outra opção. A votação estava muito complicada já de madrugada não havia votos suficientes para que [a medida] fosse aprovada. Foi a pressão das ruas, com mais de um milhão de mulheres fazendo vigília, que determinou o custo político para os que decidiram reverter o voto.

“Nós decidimos. Aborto legal já”, diz o cartaz em uma rua em Buenos Aires | Foto: Opera Mundi - Reprodução/ Facebook

“Nós decidimos. Aborto legal já”, diz o cartaz em uma rua em Buenos Aires | Foto: Opera Mundi – Reprodução/ Facebook

Quais são as expectativas para a votação no Senado?
Nossas expectativas seguem sendo positivas, já que entendemos o que somos capazes de fazer. No entanto, o Senado é caracterizado por ser mais conservador, de forma que o trabalho prévio que temos que nos propor é mais complexo. De hoje até setembro temos um longo caminho. Diante da pressão de ontem, seguida da resolução no Congresso, alguns representantes de blocos de senadores já assumiram seu compromisso com a aprovação do projeto.

Como foi a receptividade da sociedade a esse debate?
O debate foi bem recebido em geral, já que o aborto é uma prática conhecida e um assunto de saúde pública. No entanto, setores das igrejas católicas e evangélicas têm gerado bastante pressão e repudio. Do nosso ponto de vista, essa reação não se traduz em massa. A massividade foi nós que garantimos nas ruas. Os que estavam contra, apesar de terem conseguido fazer um forte lobby dentro do Congresso, não conseguiram igualar nossa capacidade de mobilização.

É interessante ver que os que votaram dentro do Congresso a favor do projeto de IVE [Interrupção Voluntária da Gravidez, em português] foram quase em sua totalidade pessoas jovens e mulheres. Esta composição do voto [a lei foi aprovada com uma margem estreita] dá conta da falta de representatividade que temos as maiorias no recinto, já que esses deputados não dão conta do que passa fora, onde a aceitação e realização da prática do aborto é mais comum do que propõem em seu discurso conservador.

“As ricas pagam. As pobres sangram. Aborto legal”, lê-se no cartaz. Foto: Nuevo Encuentro Rosario/ Facebook

“As ricas pagam. As pobres sangram. Aborto legal”, lê-se no cartaz. Foto: Nuevo Encuentro Rosario/ Facebook

Temos visto uma forte participação de mulheres jovens nas marchas do Ni Una Menos em defesa do aborto. Por que essas meninas estão tão mobilizadas? O que aconteceu para determinar essa mobilização?
Entendemos que essas jovens estão tão mobilizadas porque compartilham a vida com outras gerações de feministas. O feminismo invadiu todos os espaços e as jovens começaram a compartilhar essas ideias e práticas que antes ficavam relegadas a pequenos grupos de mulheres.

Hoje em dia, as jovens conhecem o feminismo seja na família, nos meios de comunicação, nos espaços políticos, nas escolas, nas ruas. O chamado do feminismo pela liberdade de decisão sobre os corpos em todos os sentidos se converte rapidamente em consigna para qualquer uma que vive em seu quotidiano a violência sobre seus corpos.

Essas meninas pedem educação sexual nas escolas, mas já há uma lei nesse sentido. Por que essa lei não corresponde às necessidades delas?
Apesar de a lei de Educação Sexual Integral (26.150) ter sido aprovada há mais de 10 anos, as escolas ainda não terminaram de implementá-la. Ainda se sustenta certo discurso sobre educação sexual como temática que deve ser abordada na família. No entanto, aos poucos, essa concepção vai se rompendo e cada vez são mais as e os professores que decidem assumir seu compromisso com a aplicação cotidiana dessa lei.

Como acha que ficará o tema do feminismo na sociedade argentina? Do Brasil temos uma ideia de que realmente é uma revolução feminista, está de acordo?
Coincidimos. Estamos vivendo um momento de revolução de massas, de problematizar tudo o que é conhecido para criar o novo. Isso se vê tanto em o campo popular, como é assim também no dominante, onde os sentidos construídos coletivamente pelos feminismos irrompem em todos os espaços e levam a questionar violências, hierarquias e lógicas de centralização do poder. Este é o começo, falta um montão, mas estamos de convencidas que não há volta atrás nesta conquista e seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!

* Jornalista, editora do site Diálogos do Sul