Denúncias contra Fraport e em defesa da Vila Nazaré chegam a Frankfurt 

Por Rede Jubileu Sul Brasil

Acionistas da Fraport AG, empresa que conquistou a concessão dos aeroportos de Fortaleza e Porto Alegre pelos próximos 30 e 25 anos, respectivamente, realizaram ontem, 29, reunião na cidade de Frankfurt, na Alemanha, onde está localizada sua sede. Na ocasião, considerada uma das reuniões mais importantes do ano para a empresa, os acionistas contaram com a participação dos Amigos da Terra – Alemanha, entidade solidária às reivindicações dos moradores da Vila Nazaré, já impactados com os planos de expansão do aeroporto.

Arne_Fellermann_Fraport_2018_web

Arne Fellermann da Bund/AdT Alemanha

Durante a reunião dos acionistas, um representante do Amigos da Terra – Alemanha falou por dez minutos sobre a luta e a resistência da Vila Nazaré que é vizinha do aeroporto e está ali localizada há cerca de 60 anos. Além de denunciar as violações cometidas pela Fraport, o integrante do Amigos da Terra denunciou  ações da Itazi Engenharia, da prefeitura de Porto Alegre e da Brigada Militar contra a comunidade.

Os discursos foram feitos com informações enviadas por moradores da Vila Nazaré, pela Associação dos Moradores da Vila Nazaré (Amovin), pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), pelos Amigos da Terra e pelo Coletivo Catarse. Em resposta às denúncias, o CEO (chefe-executivo) da Fraport, Stefan Schulte, respondeu que a Fraport não tem responsabilidades frente a remoção da Vila Nazaré.

“Esse é um problema da prefeitura. Todo mundo vai receber casa nova sem ter que gastar nada, então as pessoas não teriam do que reclamar”, disse Schulte.

Em resposta, o coletivo de movimentos em defesa dos moradores da Vila Nazaré escreveram. “A Nazaré não é uma ocupação ilegal, está ali há cerca de 60 anos e tem direito de posse àquela terra. A Fraport tem sim que se responsabilizar pelos danos causados à comunidade, se ela quer a pista do aeroporto, nós queremos os nossos direitos, só isso”, registrou o coletivo.

Entre as reivindicações dos moradores estão o desejo de permanecer na região com acesso a serviços de moradia, saúde, transporte, segurança, educação. Segundo jornalistas do Movimento Catarse, sob a justificativa das obras de expansão da pista do aeroporto Salgado Filho, as famílias da Vila Nazaré, estão sendo ameaças de perderem suas casas. Sem negociação, a prefeitura quer dividir a comunidade que ali se estabeleceu, mandando parte das famílias para apartamentos do Minha Casa, Minha Vida no bairro Sarandi, onde hoje está a Ocupação Senhor do Bom Fim, e outra parte para o bairro Mário Quintana, próximo ao Loteamento Timbaúva.

A decisão não agrada os moradores: não querem ser empurrados para mais longe, tendo arrancadas suas raízes de uma comunidade onde se sentem seguros. Também não querem se separar da vizinhança com quem cresceram e criaram laços.

 

Vila Nazaré “ocupa” reunião de acionistas da Fraport e irrita CEO da empresa

Por Amigos da Terra Brasil

A partir de uma articulação entre Amigos da Terra Brasil e Amigos da Terra Alemanha (Bund), a luta da Nazaré foi ouvida dentro da reunião de acionistas da Fraport, no coração da empresa

O encontro ocorreu na manhã desta terça-feira (29/5, madrugada no Brasil), na cidade de Frankfurt, Alemanha. Por 20 minutos (10 minutos cada fala), Christian Russau (autor do livro lançado na segunda-feira sobre as violações cometidas por empresas alemãs no Brasil) e Arne Fellermann (da Bund) contaram a história de luta e de resistência da Vila Nazaré, além de denunciar as violações cometidas pela Fraport, pela Itazi, pela prefeitura de Porto Alegre e pela Brigada Militar contra a comunidade. Os discursos foram feitos a partir da construção coletiva de todos envolvidos na resistência, as pessoas da Nazaré, a Amovin (Associação dos Moradores da Vila Nazaré), o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), a Amigos da Terra e o Coletivo Catarse. Ao fim da fala, muitos aplausos e gritos de apoio à luta por parte do público que acompanhava a reunião.

russau_slider_fraport

Christian Russau

Obviamente, porém, os chefes não gostaram tanto assim dessa “ocupação”… E o CEO (chefe-executivo) da Fraport, o Sr. Stefan Schulte, que inclusive visitou Porto Alegre em outubro de 2017, quando encontrou o governador do RS José Ivo Sartori (e passaram longe da Vila Nazaré), respondeu aos questionamentos com mentiras e desinformação. Ele afirmou, entre outros absurdos, que: a Nazaré é uma ocupação ilegal e as pessoas não deveriam morar ali; a Fraport não tem nenhuma responsabilidade sobre a remoção da Nazaré, esse não seria um problema deles, mas sim da prefeitura e dos poderes públicos; e que todas as famílias teriam já casas prontas para morar, pelas quais nem precisariam pagar e, logo, não teriam do que reclamar.

Em Porto Alegre, sabe-se bem como tais informações são equivocadas. Primeiro, a Nazaré não é uma ocupação ilegal, está ali há cerca de 60 anos e tem direito de posse àquela terra. Segundo, a Fraport tem sim que se responsabilizar pelos danos causados à comunidade. Não há oposição à expansão da pista de pouso do aeroporto: quer-se somente a garantia dos direitos às pessoas atingidas pelas obras, que precisam fazer parte da solução da questão. Simples. A comunidade da Vila Nazaré é bem clara em suas exigências, como a de ficar na região onde já criou raízes, com melhorias no acesso a serviços de moradia, saúde, transporte, segurança e educação.

Por último, a própria Fraport, na figura do CEO Schulte, admite não saber quantas pessoas moram na Nazaré: ele calcula algo em torno de 600 a 900 famílias, mas não sabe ao certo – e só poderá saber ao fim do processo de cadastramento (hoje, responsabilidade da subcontratada da Fraport, a Itazi, que constrange moradores e apela para a presença policial para realizar seu questionário). Sem saber ao certo quantas famílias vivem na Nazaré, como pode a Fraport afirmar que todos receberão casa? Ora, apenas mentindo… Além do mais, as casas às quais Schulte se refere são as do Nosso Senhor do Bom Fim e do Loteamento Timbaúva, seguindo o plano de dividir a comunidade, o que já foi refutado pelas famílias, que se negam principalmente a ir para o Timbaúva, onde vidas seriam postas em risco. Timbaúva não! – gritou alto na audiência pública da semana passada a comunidade inteira.

A Fraport precisa assumir suas responsabilidades sobre o processo de remoção da Vila Nazaré, cessar com as violações que impõe aos direitos das moradoras e moradores, em uma relação construída por meio do medo, de ameaças e de completa falta de transparência. Ontem, os acionistas – e também o CEO Stefan Schulte – ouviram isso, constrangidos. Que aprendam a dialogar, pois não haverá descanso: a Vila Nazaré segue firme, unida e na luta!

Em determinado momento, Schulte afirmou ter orgulho do portfólio internacional da Fraport, especialmente com o acréscimo de Porto Alegre e Fortaleza (outra cidade brasileira na qual a Fraport opera o aeroporto). Os “acionistas críticos” então perguntaram, pergunta à qual agora fazemos coro: Do que você tem orgulho, sr. Schulte? Você sabe o que a expansão do aeroporto fará com a população local, expulsando dali 2.100 famílias sem nenhuma garantia de direitos? E isso lhe satisfaz?

fraportlatuff