Biodiversidade, sustento e culturas 84/2015

biodiversidade2A fotografia nos mostra a pulverização com maquinaria especializada à flor da terra, de um campo de monocultivo, obviamente industrial, e
abacaxi. Talvez para uma pessoa urbana, pouco propensa a inteirar-se, a foto inclusive lhe pareça grandiosa, pela maravilha da tecnologia. Na realidade, cada pulverização que ocorre no planeta vai piorando a situação de nosso entorno, da gente e dos animais e plantas, do ar, da água, do futuro.

O que acontece se tentamos interconectar mais e mais processos aparentemente in conexos? Como se conectam as nocivas e assassinas pulverizações com os venenos agroquímicos que hoje se utilizam, com o incremento dos alimentos processados, a substituição de alimentos frescos pelo plantio e “cultivo” de mercadorias, na realidade matéria prima para a produção de comida que muitas vezes podemos simplesmente chamar de porcaria? Como joga isto com o aumento da obesidade, das diabetes, da marginalização dos pequenos comerciantes, das lojinhas das esquinas no altar das lojas de conveniência e os supermercados que vão pra todo lado, invadindo e concentrando os territórios de comércio independente para controlar a disponibilidade de certos alimentos que, seja dito as claras, são justamente estes que nos provocam o sobre peso e as diabetes? E os transgênicos? Que dizer do papel nada nobre que jogam no advento de uma agroindústria que não se detém diante de nada e consegue “convencer” aos governos que seu destino mutuo está intimamente ligado e é vital que não promova a justiça para as pessoas, mas sim o interesse das transnacionais, como acaba de ocorrer no Brasil com o plantio  autorizado dos eucaliptos transgênicos.

Como se relacionam os transgênicos com a promoção dos agroquímicos, claramente nocivos, letais, brutais.

Por isso as pessoas se organizam e então a gente entende plenamente  movimento da Via Campesina, e da Coordenadora Latino americana de Organizações do Campo (CLOC) e sua decisão irrenunciável de lutar contra a opressão, o colonialismo, o patriarcado e as corporações,  contra a deshabilitação da vida campesina e o desmonte da rentabilidade da produção própria de alimentos. Sua luta no altar da soberania alimentar que promova equidade, alimentação sadia e criatividade social mediante múltiplos processos de articulação e organização fortes, transparentes, sempre urgentes.

Devemos deter os transgênicos, os monocultivos agroindustriais, os venenos agroquímicos que afetam as mães e nossos olhos. Devemos promover uma justiça que freie a concentração de terra, o desmantelamento da propriedade coletiva e as servidões energéticas. Temos que examinar profundamente os mecanismos de fraude como REDD e os serviços ambientais. As alienações como as Reservas da Biosfera.

Nos urge defender nossos territórios do extrativismo e da violência que nos têm destinada. E neste horizonte, o espaço de reflexões que oferecemos desde Biodiversidade, Sustento e Culturas quer somar vozes, razões, entendimentos, visões do que são os ataques e as propostas de resistência e lutas reais, ou imaginadas, mas, convocadoras. Necessitamos nos reconstituir como sujeitas e
sujeitos de nossos próprios processos de entendimento e transformação.

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Sustento e cultura
Edição 84, abril de 2015
Baixe a publicação sem custos (formato PDF)

Organizações Coeditoras: Ação Ecológica, Ação pela Biodiversidade, Campanha das Sementes da Via Campesina – Anamuri, Centro Ecológico, CLOC-Vía Campesina, GRAIN, Grupo ETC, Grupo Sementes, Rede de Coordenação em Biodiversidade, REDES-AT Uruguay, Sobrevivência
Administração: Lucía Vicente
Edição: Ramón Vera Herrera
ISSN: 07977-888X

Biodiversidade, sustento e culturas é uma publicação trimestral de informação e debate sobre a diversidade biológica e cultural para o sustento das comunidades e culturas locais. O uso e a conservação da biodiversidade, o impacto das novas biotecnologias, patentes e políticas públicas são parte da cobertura. Inclui experiências e propostas na América Latina, e busca ser um vínculo entre aqueles que trabalham pela gestão popular da biodiversidade, da diversidade cultural e do autogoverno, especialmente das comunidades locais: mulheres e homens indígenas e afroamericanos, camponeses, pescadores e pequenos produtores. 

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