Duas guerras e um pacifista



Os olhos de Stefan Zweig

sz_menino

“Atentem para os olhos”. Projetada na parede, a imagem de um garoto com olhos grandes e luminosos fita a plateia. “Daria para fazer uma exposição apenas sobre a expressão dos olhos de Stefan Zweig”, complementa Kristina Michahelles. Aos poucos, outras fotografias são reveladas. A de um escritor no auge de sua carreira. O desembarque no Rio de Janeiro. O retrato de um homem maduro. O olhar seguro permanece ali, alterando-se com o passar dos anos.

Kristina Michahelles narra os principais acontecimentos da vida de Stefan Zweig (1881 – 1942). Tradutora há muitos anos, faz parte da diretoria da Casa Stefan Zweig, museu situado em Petrópolis (RJ). De Stefan Zweig, Michahelles traduziu obras como Joseph Fouché – retrato de um homem político e O mundo insone (Ed. Zahar) e Brasil, País do Futuro (LPM). A palestra fez parte do lançamento dos livros A rede de amigos de Stefan Zweig: sua última agenda, 1940-1942, edição da Casa SZ, e Autobiografia: o mundo de ontem, da Ed. Zahar.

 

Duas guerras na vida de um pacifista

kristinaDa biografia do escritor, Michahelles ressalta o pacifismo arraigado. Na Primeira Guerra, ele serviu em um arquivo, com a sorte de ter a ilustre companhia de intelectuais como Rainer Maria Rilke e Franz Werfel. Nesta época, aproxima-se de Romain Rolland, que seria uma inspiração para seus ideais sobre a necessidade da paz. Dos 21 aos 52 anos, tem uma vida relativamente feliz: trabalha intensamente como escritor, com grande reconhecimento por parte do público, realizando viagens interessantes – além de conhecer a Europa, foi para a Índia, extremo Oriente, Argélia, Cuba, Panamá, Estados Unidos e Canadá.

Possui um círculo de relações invejável, tendo contato com grandes intelectuais e artistas da época. Michahelles cita Theodor Herzl, jornalista e idealizador do Estado de Israel; Walter Rathenau, ex-ministro da República de Weimar; Émile Verhaeren, poeta belga; e o pai da psicanálise Sigmund Freud. Compositores e regentes estão em seus círculos de amizade como Arturo Toscanini, Bruno Walter e Richard Strauss.

Segundo relata Kristina Michahelles, é com a Segunda Guerra que sua vida tem o curso alterado para sempre. A partir do momento em que a Áustria é anexada, Zweig refugia-se em Londres. Seus livros são queimados em praça pública por nazistas. Nesta época, viaja para o Brasil, onde é recebido com honras de estado por Getúlio Vargas. Obtém, então, o visto permanente, “raro privilégio, concedido a poucos refugiados em tempos de guerra”.

sz_vargas

Zweig recebido com honras de Estado no Brasil.

Em seus últimos cinco meses de vida, reside no endereço com o nome do poeta de Canção do Exílio: Rua Gonçalves Dias, 34 em Petrópolis. A palestrante narra o estado depressivo do escritor diante das notícias da Guerra, com o ataque japonês a Pearl Harbour, a entrada dos EUA no conflito e a saída do Brasil da neutralidade. Com minúcia e detalhe, Zweig prepara sua morte, enviando mais de 20 cartas com instruções e encaminhamento de bens. Redige a famosa Declaração, que será estampada nos jornais por todo o globo no dia seguinte.

 

Dois livros e a perspectiva dos últimos anos

Alberto Dines fez esta participação em vídeo durante o evento. Autor da detalhada biografia Morte no paraíso (Ed. Rocco) sobre Zweig, ressalta que é a partir da perspectiva brasileira dos últimos anos do autor que traça sua pesquisa.

 

Dines enxerga Zweig desde seu desencanto, quando o mundo que o vienense conhecia é tragado por duas guerras e se transforma no “mundo de ontem”. O biógrafo também destaca, na figura de Rosa Luxemburgo, um eco dos ideais de Zweig, algo que lhe era muito caro e que repetia com frequência: a vitória moral dos derrotados. Relembrar e valorizar os “derrotados” possui uma relação com o pacifismo de Zweig, de apontar outros caminhos fora das linhas mestras.

Sobre o lançamento de A rede de amigos de Stefan Zweig: sua última agenda, 1940-194, comenta a importância da análise da agenda telefônica, um trabalho quase de investigação policial, que permite perceber com quem o escritor mantinha relações pessoais no final da vida.

Kristina Michahelles até perguntou ao público “quem é que tem três ganhadores de Prêmio Nobel na agenda telefônica?” Este era Zweig, com poucos contatos diretos com a intelectualidade brasileira – destaca-se Guilherme de Almeida – mas próximo a muitos pensadores europeus e norte-americanos. [leia mais aqui]

Sobre a obra Autobiografia: o mundo de ontem, houve uma pergunta da plateia a respeito da escolha do título, considerando que o título original seria somente O mundo de ontem: memórias de um europeu – Kristina considerou que o uso de “autobiografia” seria uma opção comercial da editora brasileira e que preferiria o uso do título tradicional.

As duas obras lançadas possuem um diálogo nítido. Dines avalia que O mundo de ontem acabar por ser “uma ferramenta biográfica, uma reflexão sobre a própria vida” e, em sua visão de biógrafo, avalia que seria o melhor livro do austríaco, considerando que Zweig parou, naquele momento, para analisar sua vida com uma mirada mais longeva, com maior acúmulo de vivência. A pesquisa feita para a publicação da agenda complementa esta análise.

Durante o evento, uma participação marcante foi a do fotógrafo Fausto Chermont, sobrinho neto do diplomata que acolheu Stefan Zweig no Brasil, Jaime Chermont, nome que consta na agenda. O fotógrafo contou sobre a dificuldade de recuperação da memória destes episódios em sua família. Kristina discorreu sobre o trabalho da Casa Stefan Zweig em também reunir histórias de exilados, narrativas descobertas após o trabalho de pesquisa que a agenda suscitou.

A Casa Stefan Zweig está aberta para visitas de sexta a domingo, das 11h às 17h. Situa-se na Rua Gonçalves Dias, 34, Petrópolis (RJ). Contato: (24) 2245-4316.

O evento aconteceu na Fundação Rosa Luxemburgo com apoio da Casa Stefan Zweig, Editora Zahar e Goethe-Institut São Paulo no dia 16 de julho de 2015.