Em São Paulo, “mulheres dizendo o que pensam são ameaça passível de uso de violência”

 No mesmo dia, Polícia Militar age de forma violenta e ilegal contra mulheres em duas manifestações pacíficas diferentes  

Por Júlio Delmanto

A advogada Carolina Freitas era uma entre os milhares de manifestantes que defendiam mudanças na política de drogas brasileira na Marcha da Maconha de São Paulo, realizada na tarde do último sábado, 8 de junho. Ela relata que o clima do evento era completamente pacífico até que policiais militares detiveram um jovem por suposto porte de maconha. Por conta de sua profissão, Freitas buscou se aproximar dos agentes da lei para tentar mediar ou dialogar. Acabou agredida com dois golpes de cassetete em seu joelho.

No mesmo dia e horário, acontecia na cidade de Guarulhos a Marcha das Vadias, mobilização feminista que, assim como a Marcha da Maconha,é organizada em diversas cidades do país e do mundo de forma autônoma, descentralizada e pacífica.   Alguns momentos após iniciada, a marcha parou em forma de roda e, com o megafone aberto para depoimentos, mulheres se manifestavam contando o motivo de ali estarem, relatando casos de violência de gênero e outras motivações. O que se seguiu foi relatado pelo blog do movimento: “Um policial interrompe o momento e questiona sobre uma manifestante que fazia topless, alegando que ela seria presa se não se vestisse. A polícia partiu em direção a manifestante de topless, então todos os outros se posicionaram em frente à garota, que conseguiu se afastar, logo em seguida partiram para cima de outra manifestante completamente vestida que estava fazendo uma faixa, violentamente puxaram-na pelo pescoço sem alegar motivo algum enquanto todas perguntavam qual era a acusação e tentavam impedir a prisão”.

Fora a coincidência de terem ocorrido na mesma data, os fatos relatados, e que não foram os únicos ocorridos durante estas manifestações, demonstram que a Polícia Militar paulista tem agido de forma violenta e ilegal tendo como alvo mulheres durante o seu exercício de cidadania. Segundo Carolina Freitas, é preciso olhar com atenção para a especificidade deste tipo de violência: “Não é a mesma coisa um policial agredir um homem e uma mulher, é uma questão de gênero muito séria e que, muitas vezes de forma até mais grave, acontece todos os dias. Em muitos casos, sabemos que há participações de policiais”.

Além de Freitas, ao menos duas outras mulheres foram agredidas durante a Marcha da Maconha. Ambas estavam desacompanhadas neste momento e foram empurradas por policiais, sendo que uma delas chegou a cair no chão e outra recebeu também cotoveladas de um homem com praticamente o dobro de seu tamanho. Já na Marcha das Vadias de Guarulhos, após a primeira detenção as manifestantes seguiram para a Delegacia onde sua companheira estava e protestaram. Uma delas tirou a camiseta e foi igualmente detida – após serem liberadas, as duas realizaram exames de corpo de delito pois estavam marcadas pela violência das abordagens.

Agressão inesperada e irresponsável

Carolina relata que a agressão foi “absolutamente inesperada”, não só por ela ser mulher mas pelo clima do evento e pelo papel que ela estava cumprindo no momento: “Eu não estava fazendo nenhuma menção de agredir a polícia, pelo contrário, estava ajudando a organização a acalmar os ânimos para que não houvesse ninguém machucado”. Após lembrar que o crime de porte de substâncias ilícitas para consumo pessoal não é sequer passível de pena de privação de liberdade, sendo considerado portanto uma infração leve, ela aponta que a ação da polícia poderia ter causado ainda mais danos, pois ocorreu em uma via estreita (Rua Augusta) e inflamou parte dos manifestantes. “Havia o risco de gente ser pisoteada, de se machucar. O que parece é que eles agiram assim para criar um tumulto, criar um pretexto para reprimir”.

Mesmo com a truculência policial, a manifestação seguiu em frente e terminou de forma pacífica na Praça da República, onde foi recebida por um show de reggae e rap. A organização fala em cerca de dez mil presentes. O garoto detido foi acompanhado por advogados ligados ao movimento, e liberado por volta das 21h30, quatro horas depois de sua detenção.

Em nome do Pai

Divulgada pela cidade e pela Internet, a Marcha das Vadias enfrentou um adversário inusitado. No dia 26 de maio, o Padre Antonio Bosco da Silva, Pároco da Catedral Nossa Senhora da Conceição e Vigário Geral da Diocese de Guarulhos, enviou carta à PM para “manifestar a nossa preocupação com o protesto anunciado na mídia com o infeliz nome de ‘marcha das vadias’, o qual, segundo informações, é sempre eivado de crimes contra direitos de outras pessoas, tais como atentado violento ao pudor, violação de direitos religiosos, agressões físicas e outros que podem suceder”. “É de se imaginar que o objetivo de realizar o protesto no Marco Zero, como aconteceu em outras localidades, é a invasão da Igreja Católica, lugar sagrado para os cristãos, por mulheres desnudas que proferem impropérios e ofensas”, complementava o líder religioso.

O clima de intolerância prosseguiu no dia do evento, que tinha concentração próxima à Igreja dirigida por Bosco da Silva. A feminista Lola Aronivich conta, em seu blog, o que viu: Quando eu cheguei, as meninas estavam fazendo os cartazes e organizando tudo. Logo reparei que o padre estava na janela da igreja ao lado de uma imagem de santa. Havia também um grupo grande cantando e rezando com ele; eles usavam microfones. Num primeiro momento, achei que fosse algum evento católico. Mas depois reparei que havia várias viaturas da PM e um grupo vestindo camisetas com a estampa ‘aborto não’. Comecei a ter uma intuição ruim porque eles aumentavam cada vez mais o volume. Foi ficando mais difícil para nós da Marcha das Vadias fazer o jogral com um megafone fraquinho. Então entendi que os católicos realmente estavam se manifestando contra a marcha”.

Católicos se organizam para "defender" igreja da Marcha das Vadias

Católicos se organizam para “defender” igreja da Marcha das Vadias

O contexto era portanto de tentativa, por parte dos religiosos, de violação do direito de livre manifestação, salvaguardado pelo Artigo V da Constituição Brasileira. Mas a polícia estava mais preocupada com os seios à mostra de uma ou outra garota, mesmo que para coibir tal “crime” precisasse ela mesmo agir de maneira ilegal, assim como durante a Marcha da Maconha. “Qual o perigo que uma mulher exibindo os seios em público oferece? A visão dela incomoda tanto que um policial resolve agredi-la fisicamente? Se isso não é misoginia, não sei o que mais pode ser. Quer dizer, corpo feminino só serve para entretenimento masculino. Se uma mulher o exibe numa demonstração de poder num protesto, isso ofende as autoridades”, protesta Lola.

Segundo comunicado da Marcha das Vadias, a manifestação “viu de perto o que o patriarcado faz todos os dias com as mulheres em delegacias, o quanto o nosso estado não é laico e a caça as bruxas que ocorre em 2013, pois mulheres dizendo o que pensam são ameaça passível de uso de violência”. A advogada Carolina Freitas concorda com este entendimento: “Acho que a participação da mulher na política, no espaço público, é duplamente castigada. Somos menos ‘socialmente esperadas’ quando nos manifestamos, o que dá um aval moral prum policial homem, por exemplo, vir com repressão física, etc. Uma mulher participante da política transgride duplamente a ordem das coisas”.

 

* Fotos: Nathanael Ferreira, NINJA e tvlivrebrasil.blogspot