“Essa Copa é coisa do Satanás”

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Em visita a locais atingidos por obras da Copa em Recife, relatora da ONU para o direito à moradia defronta-se com a angústia e a indignação das comunidades do Coque e do Loteamento São Francisco

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“Essa Copa é coisa do Satanás”

Por Júlio Delmanto, Fundação Rosa Luxemburgo – De Recife

 

– Interessante, a gente chama o pessoal de jornal e nunca vem ninguém, não. Agora vêm porque a senhora veio – reclamava um morador da comunidade Coque, região central de Recife, com o dedo apontado para a caravana de jornalistas, ativistas e vizinhos seus que sofria sob o sol da tarde enquanto verificava os impactos da Copa do Mundo nesta região.

– Não tem problema, é por isso que estou aqui – respondeu Raquel Rolnik, relatora da ONU para o direito à moradia, responsável por atrair os repórteres da imprensa local.

– Desculpa, mas eu tive que falar,  gente! – finalizou o rapaz, que na sequência enfiou-se em uma das vielas que ladeiam um mal cheiroso córrego, este por sua vez “arrodeado”, como dizem os recifenses, pelos escombros das casas já destruídas pelo governo – que em troca do compromisso de saída prometeu indenizações aos que vivem há décadas nesta região.

“Nós valemos mais”. Além de estar nas camisetas de alguns dos ativistas do Comitê Popular da Copa de Pernambuco, acompanhada de uma “hastag”, esta frase pode ser vista pichada em paredes tanto da comunidade do Coque quanto no Loteamento São Francisco, município de Camaragibe, onde as remoções de moradores também acompanham obras relacionadas à Copa do Mundo. Ambos locais foram visitados por Raquel Rolnik em uma agenda de trabalho realizada na cidade do Recife nos dias 29 e 30 de novembro. As atividades culminaram com um debate público ocorrido na Faculdade de Direito, organizado pelo Comitê.

 

 

No caso do Coque, são cerca de 60 famílias ameaçadas por obras de um terminal viário que será construído na região, mesmo com a área sendo definida como ZEIS – Zona Especial de Interesse Social, o que deveria representar o reconhecimento do direito de as pessoas permanecerem ali e determinar que um projeto de urbanização fosse implementado. Já em Camaragibe, as ameaças se dão por conta da Arena Pernambuco, que receberá jogos da Copa e pode ser avistada de algumas regiões do bairro. Das 126 famílias ameaçadas, 105 já deixaram o local, sendo que muitas delas sequer receberam as (baixas) indenizações prometidas. As que ainda resistem, o fazem sob constante ameaça de remoção violenta, sem que haja sinalização de disposição de negociação por parte do poder público.

Em ambos os locais, a revolta com a forma como as “negociações” estão sendo implementadas e com os ínfimos valores oferecidos pelas moradias é bastante forte. “Eles infringem o direito da gente na cara da gente, não pedem nem com licença pra entrar, e a gente é que está errado? Na época de eleição chegam aqui pedindo votos”, questionava uma das moradoras numa das inúmeras rodinhas formadas em torno a Rolnik durante o dia. “A gente se sente injustiçado, na próxima eleição vamos colocar um portão pra esses políticos não entrarem”, continuou antes de ser interrompida pelo senhor a seu lado, de boné e bigode, que prosseguia com novas reclamações e explicações, num processo que durou o dia todo, como se as vidas daquelas pessoas fossem, por ação estatal, organizadas dentro de uma só narrativa de violência e angústia. “É expulsão mesmo, querem construir à força”, apontava.

 

 

Para os microfones e moradores, Rolnik incansavelmente explicava que “o parâmetro do direito à moradia é: está saindo daí para melhorar ou para piorar? A questão não é necessariamente o valor da indenização, se é 10 mil, 20 mil, não dá pra dizer sem saber. Mas é que com o valor oferecido você não tem outra alternativa senão piorar, e assim não pode ser”. “Cinco mil seiscentos e sessenta e cinco reais me ofereceram”, repetia e repetia a moradora, entre incrédula e indignada. “O Coque é o quilombo do pobre, a gente não quer sair daqui!”, continuou, disputando a palavra com outros vizinhos seus que cercavam a relatora da ONU.

“Hoje a tarde mesmo eu disse ‘Glória a Deus, vem um povo bom por aí’, que bom que vocês chegaram”, dizia Dona Maria, com o rosto suado e sentada em uma cadeira no meio de sua cozinha, nos fundos do Coque, uma das partes mais precárias da comunidade. Durante a conversa, as rugas em sua pele escura quase ficavam imperceptíveis diante de sua energia: “Estou esperando os homens virem aqui fazer alguma coisa por mim, eu não tenho pra onde ir, tenho quatro netos”, declarava, relatando pagar cem reais por mês de aluguel por seu barraco cheio de gaiolas de pássaros.

“A gente não pode mais falar sobre derrubar, porque derrubar está todo mundo derrubando já”, explicava uma senhora, moradora do Loteamento São Francisco.  “Agora eu vou lutar, porque eu só vou sair com o meu pai, de 81 anos,  cadeirante porque teve um AVC de tanto nervoso, se a gente tiver o dinheiro pra pagar outra casa. Meu pai é digno e mora aqui há 50 anos”, relatava. “A pessoa sair do que é seu, do que lutou pra ter, de graça? Isso não tem graça nenhuma”, emendou uma amiga sua, braços cruzados e tom enervado.

 

 

Com uma camisa de campanha política, uma cruz de madeira no peito e cabelo cortado com franja, estilo indígena, uma senhora chamou Rolnik para o portão de sua casa. “Para viver não há limites”, dizia a camiseta de sua amiga, que afirmava ser avó de duas crianças, uma delas com problemas mentais. “Estou aqui me acabando por causa desses problemas, é um desespero. Vamos ficar no meio da rua?”, questionava essa, enquanto aquela resumia: “Essa Copa é do Satanás, é do Diabo, não é de Deus, não. Isso tá destruindo a vida de todo mundo”. Em comum entre as duas, a mesma promessa: “Daqui eu não saio, não. Só se derem um tiro no meu pé”. Como ninguém duvida que sejam capazes disso, o clima seguia tenso com o por do sol e a saída da comitiva, que seguiu para o centro da cidade, onde aconteceu o debate público.

 

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– Fotos de Gerhard Dilger e Júlio Delmanto