Redes livres em Ubatuba



Desigualdade na internet, controle e conexões possíveis

Instalação de redes comunitárias interconectadas em quilombo e aldeia em Ubatuba possibilita novos horizontes de comunicação descentralizada e livre. Falta de alternativas para acesso a internet, dificuldades técnicas e políticas são principais desafios para moradores

Por Daniel Santini

jambeiro-net

Antena sem fios instalada no topo de jambeiro em quilombo. Clique na imagem para ampliar

Duas redes comunitárias interconectadas foram instaladas em outubro em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, como parte de um projeto de desenvolvimento de tecnologias livres. Graças a uma rede de antenas sem fio adaptadas em árvores e em outros pontos estratégicos, o Quilombo de Cambury e a Aldeia Tekoa Jaexa Porã (Boa Vista, em Guarani), passaram a contar com redes de comunicação internas conectadas a um ponto de internet. Até então, era necessário sair e caminhar longas distâncias até mesmo para fazer chamadas de telefone em ambas comunidades.

A instalação das redes foi realizada pelas organizações Actantes,  coletivo que organiza ações diretas pela comunicação livre em redes digitais, e Coolab, laboratório cooperativo de redes livres, e contou com o apoio da Fundação Rosa Luxemburgo. Além da configuração das redes em si, integrantes das duas organizações também realizaram capacitação técnica com moradores e moradoras, de modo a permitir que as redes sejam autogestionadas e até mesmo ampliadas de maneira autônoma. Conceitos como direito à privacidade e à navegação anônima, e ao compartilhamento livre de conhecimento e bens culturais, também foram abordados em formações realizadas em meio à instalação durante as duas últimas semanas de atividades.

Alcides Alves Jorge, presidente da associação de moradores do Quilombo Cambury

Alcides Alves Jorge, presidente da associação de moradores, organização que ficou responsável por administrar a rede instalada no Quilombo Cambury

As redes instaladas são descentralizadas, formadas por vários pontos interconectados, que se comunicam entre si por meio de antenas de maneira independente. A tecnologia utilizada é a de aparelhos de conexão sem fio (wifi), que podem ser encontrados a preços acessíveis, o que permite que os próprios moradores ampliem a estrutura de comunicação futuramente. Em inglês, tais redes são conhecidas como mesh, palavra que significa “malha” ou “rede”. Os pontos se entrelaçam, formando uma teia de comunicação interna livre. O fato de não haver um ponto centralizando a comunicação dificulta o controle e monitoramento de mensagens. A médio prazo, as redes podem ser expandidas e combinadas com redes de outras comunidades, criando verdadeiras teias regionais de troca de mensagens e informações.

Acesso à internet, desigualdade e direito à comunicação
As redes criadas servem também para distribuição interna de internet a partir de um ponto de conexão comercial. Existem empresas que atendem a região, mas, em função da pouca demanda, os preços para instalação de antenas para conexão via satélite costumam ser altos, o que impede o acesso da maioria. A possibilidade de redistribuir o sinal a partir de um ponto é uma oportunidade para a comunidade de somar esforços e viabilizar uma conexão coletiva, mas é também um desafio. O fato de a maioria das operadoras comerciais trabalhar com limite de franquia mensal, com planos caros e pacotes de dados reduzidos, implica em um limite coletivo para a transmissão.

Reunião realizada no quilombo para discutir a rede comunitária

Reunião realizada no quilombo para discutir a rede comunitária

Em outras palavras, em uma rede como esta, se uma pessoa participante decidir passar a noite assistindo a filmes no Youtube ou no Facebook, ou em alguma outra plataforma com alto consumo de dados, toda a comunidade pode ver o acesso à internet bloqueado até o fim do mês em função de o limite coletivo ter sido atingido. A maneira de custear a mensalidade da antena também é outra dificuldade, que implica no estabelecimento de critérios para o acesso. Ambas comunidades tiveram total liberdade para decidir internamente como organizar a participação e manutenção das redes estabelecidas; e nem sempre as reuniões organizadas para isso foram tranquilas. A falta de opções de comunicação fizeram com que muitos dos participantes dos encontros demonstrassem mais preocupação em ter acesso à internet com baixo custo do que em fazer parte da construção de uma rede livre coletiva.

A situação explicita a desigualdade no acesso à comunicação na região. Tanto o quilombo quanto a aldeia Guarani estão localizados em Ubatuba, último município do litoral no norte de São Paulo. A região fica entre dois dos principais pontos de conexão submarina de cabos de fibra ótica do Brasil, a cidade do Rio de Janeiro e o pólo formado por Santos e Praia Grande, em São Paulo. Os cabos submarinos são o principal canal de comunicação do Brasil com o exterior, com altíssima capacidade de transmissão de dados. Ubatuba, de acordo com mapeamento da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), agência estatal responsável por regular o setor, conta com pelo menos duas redes de banda larga fixa controladas por companhias privadas. Entre quilombolas e moradores da região ouvidos pelos participantes das formações, alguns relataram que empresas têm procurado autorização para passar redes de fibra ótica dentro de terras em que não há acesso à internet. A geografia de Ubatuba, com áreas de Mata Atlântica preservada e morros, por vezes impede até mesmo o uso de celular convencional, o que agrava o isolamento.

O fato de o critério de distribuição de sinal para conexão ser de mercado atendendo a critérios meramente comerciais, implica na priorização de centros urbanos com renda concentrada, dificultando o acesso a quem vive longe das grandes cidades. O fenômeno está ligado à nova organização da internet não só no Brasil, mas em todo o mundo. Se no início da rede mundial de computadores, a estrutura de conexões era feita diretamente de um computador para outro, em uma estrutura de nós semelhante ao das redes mesh, hoje os acessos que incluem computadores e também telefones são feitos por meio de redes centralizadas controladas por empresas, que têm a capacidade de monitorar e regular a troca de informações.

Werá Mirim, da aldeia Boa Vista

Werá Mirim, da aldeia Tekoa Jaexa Porã, onde alguns jovens se interessaram em aprender não só as redes, mas também como criar estruturas para captar energia solar e manter as antenas funcionando em áreas mais isoladas

Conexões possíveis
As duas comunidades beneficiadas foram selecionadas a partir de uma chamada pública aberta pelo Coolab, que desde o início de 2017 vem trabalhando com a instalação de redes comunitárias. Participaram diretamente da instalação e das formações Bruno Vianna, Carla Kupstas, Henrique Mohr, Hiure Queiroz e Tiago Pimentel, ativistas digitais integrantes de Actantes e/ou Coolab. Também estiverem presentes Felipe Fonseca, pesquisador e organizador de projetos de cultura, tecnologia e ciência, que ajudou na formulação da proposta apresentada pela aldeia Tekoa Jaexa Porã, e Santiago Bernardes, que contribuiu com a proposta da associação de moradores do Quilombo Cambury.

Entre os desafios para continuidade das redes, além da política interna de cada grupo e formas de organização, estão aspectos técnicos relacionados ao seu funcionamento e manutenção. Tanto Actantes quanto Coolab ficaram de acompanhar e ajudar com dúvidas ou questões pontuais, mas a ideia é que, com as formações iniciais, integrantes das comunidades possam acompanhar e dar continuidade ao projeto de maneira autônoma. Muitos se apropriaram do conhecimento, em especial os mais jovens. Na aldeia Tekoa Jaexa Porã alguns dos participantes aproveitaram a presença dos especialistas para aprender sobre outros temas – chegaram a construir, a partir de placas de energia solar e adaptadores simples, pontos para recarga de antenas em áreas mais isoladas, de modo a ampliar o alcance. Alguns chegaram a mencionar a possibilidade de, a partir da experiência, tentar construir redes parecidas em outras aldeias Guarani em São Paulo.

photo_2017-10-23_20-14-28

Entrada da aldeia, em área onde não há cobertura nem de telefone celular

Além da equipe que realizou a instalação e as formações, estiveram presentes também três agricultoras do Vale do Ribeira, região que, assim como Ubatuba, também enfrenta dificuldades de comunicação. Com o apoio da SOF – Sempreviva Organização Feminista, viajaram para acompanhar o projeto Lauriti Aparecida de Moura, do Quilombo do Cedro, Cláudia Suelen de Paula Moura, do Quilombo Terra Seca, e Zenaide Gonçalves Dias, da comunidade de Indaiatuba, além de Gláucia Marques, agrônoma integrante da SOF.

As integrantes das três comunidades, envolvidas em projetos de agroecologia, acreditam que redes livres podem facilitar a comunicação interna e ajudar na comercialização do que plantam e produzem, e planejam instalar teias parecidas no próximo ano em suas comunidades. Além de ouvirem e aprenderem sobre as redes livres e as organizações comunitárias locais, também foram convidadas a compartilhar sobre a experiência que possuem com agroecologia e na defesa de sementes crioulas, sem transgênicos, bem como sobre o trabalho com protagonismo de mulheres na resistência e produção de alimentos livres de venenos.

Zenaide

Zenaide Gonçalves Dias, do Vale do Ribeiro, conversa com mulheres do Quilombo Cambury

Fotos: Daniel Santini