Entrevista com Michael Löwy

“A esquerda precisa se reinventar”

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Para sociólogo, é preciso fazer um balanço crítico do que foi a política de conciliação de classe levada a cabo pelo PT nos últimos 13 anos

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Por Christiane Gomes e Jorge Pereira Filho

Na abertura de seu novo livro, lançado em outubro de 2016 no Brasil, Afinidades revolucionárias: nossas estrelas vermelhas e negras, o sociólogo Michael Löwy destaca a criação da Frente Única Antifascista (FUA) como um momento histórico de aliança entre comunistas e anarquistas, crucial para bloquear o avanço do fascismo no início do século XX no Brasil.

Essa referência parece ganhar pertinência redobrada nos contextos atuais, quando a esquerda ainda derrapa para encontrar as possibilidades de convergência diante de um avanço contundente das forças conservadoras. Nesta entrevista concedida na sede da Fundação Rosa Luxemburgo, Löwy defende a necessidade do diálogo entre organizações mais afinadas com a tradição marxista e os autonomistas, considerando que no terreno da “auto-organização e do enfrentamento, as pessoas podem lutar juntas”. Mesmo ressaltando a importância de nesse momento somar forças contra o avanço da direita, Löwy entende que é preciso fazer um balanço crítico do que representaram os 13 anos da gestão petista no governo federal. Para ele, essa discussão é vital para a refundação da esquerda.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Fundação Rosa Luxemburgo – Os partidores conservadores saíram-se vitoriosos nas eleições municipais. Em São Paulo, venceu um empresário privatizador, com discurso repressivo e neoliberal, e no Rio de Janeiro, foi eleito o candidato ligado à Igreja neopentecostal. Você enxerga confluências nesses resultados?

Michael Löwy – São duas faces diferentes mas que têm três pontos em comum que explicam o seu sucesso nas urnas: o apolitismo, o culto ao mercado e ao neoliberalismo e o ataque ao PT. Este é o cimento, e quem levanta estas três bandeiras leva o pacote eleitoral na conjuntura atual brasileira. No Parlamento isso vem funcionando muito bem, vide a força dos quatro Bs: Bíblia, Bala, Boi e Banco. Eles deram o golpe, vão passar a PEC 241, e mostram que têm uma harmonia quase que extremamente efetiva. E isso funciona.

A esquerda não teve força para barrar o golpe e agora com o resultado das eleições confirmou um desempenho ruim. De onde a esquerda precisa partir para fazer uma autocrítica?

O PT precisa acertar as contas com a corrupção, mas para além disso, o partido e suas forças parceiras devem fazer um balanço crítico do que foi essa política de conciliação de classe, realizada nestes últimos 13 anos, o que eu chamo de social-liberalismo, uma tentativa de combinar políticas econômicas neoliberais com uma certa preocupação social. Tal projeto fracassou, entre outras razões, porque a oligarquia dominante brasileira não quer concessões, e sim a totalidade do poder. A corrente dominante da esquerda precisa fazer um balanço autocrítico disso, o que não sei ao certo se vai acontecer, não sou muito otimista.

Uma coisa que o Frei Betto sempre insiste é que o PT, quando se tornou um aparelho do Estado, deixou de fazer trabalho de base, de organização popular, abandonou o terreno para a direita e para as igrejas neopentecostais. Ter este entendimento faz parte do balanço crítico. A esquerda mais radical, que apareceu no Rio de Janeiro e em Belém como alternativas, também precisa superar seus limites, como o sectarismo e brigas internas. Certas correntes do Psol não entenderam o golpe, como a Luciana Genro, a qual respeito muito, uma ótima campanha fez nas eleições presidenciais, mas que veio com esta de que não houve golpe, que a Lava Jato é muito bom, Fora todos, etc… muito confuso, felizmente não é a postura do Psol.

A esquerda precisa realmente se reinventar, se refundar. O mais urgente é manter a unidade de ação contra os golpistas. Isso foi costurado, com divergências, claro, mas houve uma certa unidade. Outro ponto importante é a questão ecológica, muito marginalizada, no PT, um pouco menos no Psol, mas está longe de ser uma questão central e sem isso não há como pensar em uma esquerda do século XXI.mlowyrl

FRL – Hoje o discurso das igrejas neopentecostais, que oferecem acolhimento e prometem conquistas econômicas, tem tido bastante adesão de boa parte da população – sobretudo a mais marginalizada. Ao mesmo tempo, o discurso de esquerda enfrenta grande dificuldade em disputar o imaginário destas pessoas. Tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro, a periferia votou majoritáriamente em candidatos da direita.

ML – As comunidades eclesiais de base durante muito tempo fizeram este trabalho de acolher e ajudar as pessoas. O problema é que a igreja desautorizou este trabalho durante os mandatos de Wojtyła e Ratzinger [João Paulo II e Bento XVI], e este espaço acabou sendo ocupado pelas neopentecostais. Claro que não dá para  colocar toda esta problemática nas costas destas igrejas, pois em São Paulo não foi a sua base que elegeu João Dória. A problemática é maior: o discurso do sacrifício heroico é para uma minoria da esquerda.

A ideia majoritária é se organizar para conseguir casa, terra, direitos. E durante mais de vinte anos isso funcionou muito bem, pois este foi o alicerce para a construção do PT, da CUT, do MST. O problema é que, quando o PT chegou ao governo, esse discurso da organização se perdeu em favorecimento da governabilidade, da conciliação, de tudo o que já sabemos. O Guilherme Boulos, do MTST, fornece uma cifra que resume muito bem a experiência do PT: o Bolsa Família distribuiu R$ 25 milhões, mas a bolsa banco para o pagamento da dívida externa foi de R$ 1 trilhão.
Há uma certa descrença, um desapontamento, uma desmobilização que chegou ao ponto de as pessoas não acreditarem mais, o que foi agravado pelos casos de corrupção. Não acredito que a camada pobre da população esteja condenada ao individualismo ou às igrejas neopentecostais. Esta não é uma condição inerente do povo. O fato é que a experiência do PT decepcionou, desorganizou e deixou um espaço para ser ocupado pela direita. Na política, assim como na natureza, não existe vácuo.

FRL – Nestas eleições tivemos uma enorme quantidade de votos nulos e abstenções. Essa descrença na política institucional pode ser lida numa chave positiva ou estamos criando uma base para o crescimento do fascismo?

ML – Há uma grande desconfiança em relação à política institucional e isso pode se manifestar de várias formas. Uma é cair no discurso vazio da gerência feito por João Dória e companhia, que é uma faceta da despolitização; outra é o voto nulo e abstenção, que é menos pior, pois ao menos, estas pessoas não caíram no conto do gerente; e uma última forma, a mais simpática, é a dos anarquistas e autonomistas em geral que desconfiam de tudo que seja estatal e institucional, o que é algo mais saudável. Ainda que não estejamos de acordo com tudo o que eles pregam, é preciso haver o diálogo. Em meu novo livro (leia aqui um trecho) é justamente isso que coloco: precisamos dialogar com os libertários que estão muito presentes nos setores da juventude. Sem aceitar tudo o que dizem, é preciso ter clareza de que estão abordando questões muito interessantes. Nas manifestações contra o golpe, por exemplo, estavam todos juntos: movimentos sociais, CUT, Psol, Sem Teto, anarquistas, autonomistas etc. Acho que este é um bom exemplo de como buscarmos esta unidade.

FRL –Como este discurso que norteou boa parte da esquerda de buscar ampliar as fronteiras do Estado democrático pode dialogar com este movimento autonomista que tem uma leitura muito mais crítica dos limites da institucionalidade?

ML – Mesmo o pessoal mais anti-institucional não se opõe à lutas reivindicatórias, como salário, terra, direitos. Penso que a unidade pode acontecer a partir daí, por mais que saibamos que na conjuntura atual não há possibilidade de a oligarquia fazer nenhuma concessão e que já tomou conta do Estado, tratando problema social como caso de polícia. Tenho uma sensação de que estamos voltando para a Velha República, antes de Getúlio Vargas, nos tempos da aliança do boi com o café, mas hoje é o boi com o banco, que representa uma elite retrógrada. Mas isso não impede que haja lutas e mobilizações e quando se cria uma certa relação de forças pode se lutar e impor vitórias parciais. Em uma mobilização dos sem-teto, por exemplo, você por ter gente que acha que ter uma prefeitura de esquerda é melhor, gente que nem está nessa perspectiva mais e gente que pensa que o Estado, por definição, está a serviço da elite. Mas todos podem estar juntos para ocupar um prédio vazio e fazer a luta por moradia. Neste terreno da auto-organização e do enfrentamento, as pessoas podem lutar juntas. As táticas e as teorias podem ser diferentes, mas na prática estão juntas.

Fotos: Gerhard Dilger

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